Se você entrar em um set de filmagem de uma grande marca de cosméticos ou nos bastidores de uma campanha para uma instituição bancária, dificilmente verá uma fita métrica ditando as regras fundamentais da contratação. Diferente do que o imaginário popular consolidou através das passarelas de Milão ou Paris, onde o rigor das medidas é uma ferramenta de padronização têxtil, o mercado publicitário opera sob a lógica da identificação. O “mito da altura” é uma barreira que muitos talentos impõem a si mesmos, ignorando que o setor comercial é, tecnicamente, muito mais vasto, lucrativo e resiliente do que o segmento high fashion. No mercado de modelos comerciais, a métrica de sucesso não é a estatura, mas a capacidade de comunicar uma persona.
Enquanto o modelo de passarela atua como um “cabide vivo” — onde a roupa é a protagonista e o corpo deve interferir o mínimo possível no caimento —, o modelo comercial é um catalisador de desejos e soluções. Marcas de varejo, tecnologia e bens de consumo buscam o que chamamos de lifestyle aspiracional: uma imagem que seja bela, mas ainda assim crível e próxima da realidade do consumidor final. A segmentação técnica: Fashion vs. Comercial Para entender essa dinâmica, precisamos analisar a composição de um casting. Em uma campanha de e-commerce, por exemplo, a altura pode ser relevante para facilitar a padronização das fotos em lote, mas em campanhas de vídeo (TV e digital), a expressividade facial e a postura corporal ganham um peso muito maior.
Modelos Fashion: Foco em editoriais, desfiles e marcas de luxo. Exigem medidas específicas (geralmente acima de 1,75m para mulheres e 1,85m para homens) devido ao corte das peças de amostra (sample sizes). Modelos Comerciais: Foco em publicidade impressa, vídeos, campanhas de redes sociais e catálogos. Aqui, o perfil varia conforme o público-alvo: do “pai de família” ao “executivo jovem”, passando pela “estudante universitária”. A altura é secundária à fotogenia e à habilidade de atuação. Imagine o seguinte cenário: uma multinacional do setor farmacêutico está produzindo um comercial para um novo analgésico.
O diretor de casting não procura alguém com 1,80m e rosto angulado que remeta a um editorial da Vogue. Ele busca alguém que consiga transmitir, através de microexpressões, a transição do desconforto para o alívio. Se o talento tiver 1,60m, mas possuir um sorriso carismático e dentes bem cuidados, ele terá preferência absoluta sobre um modelo de passarela que não domina a técnica de interpretação para câmera. O portfólio de um modelo comercial reflete essa versatilidade. Em vez de focar apenas em fotos conceituais e artísticas, o book deve conter variações de “perfis”.
Fotos sorrindo, fotos com trajes casuais, executivos e esportivos são essenciais. É o que chamamos tecnicamente de demonstrar o range do talento. As agências de publicidade precisam visualizar como aquele profissional se adapta a diferentes contextos de consumo. A ascensão do marketing de influência e das produções para redes sociais também pulverizou as exigências físicas. Hoje, a autenticidade é uma moeda valiosa. Marcas de beleza, como a Dove ou a Natura, há anos priorizam a diversidade de biotipos em suas campanhas globais, provando que a conexão emocional com o público gera muito mais conversão do que a perfeição inatingível das medidas de passarela.